
Deixo-vos uma reinterpretação fantástica de Fauré por Bill Evans. Saudações!
"(...)ut ager quamvis fertilis sine cultura fructuosus esse non potest, sic sine doctrina animus(...)"


Anaximandro, contemporâneo de Tales de Mileto, dizia, segundo nos conta Pseudoplutarco, “que no começo o homem nasceu de seres de uma espécie diferente; porquanto os outros seres em breve se sustentam a si próprios, ao passo que só o homem carece de amamentação prolongada. Por esta razão, ele não teria sobrevivido, se tivesse sido esta a sua forma original.” 
Torna-se uma taref
a por demais árdua expor num breve texto a verdadeira revolução que conhecerá ao longo de dois séculos o pensamento europeu, e apenas esse pensamento, sublinhe-se. No século XVII verificou-se uma ofensiva contra o princípio da autoridade. No século XVIII, esta ofensiva parece ter triunfado em todo o lado. Note-se o que escreveria o historiador inglês Norman Hampson, na sua obra O Século das Luzes: “ O horizonte intelectual da maioria das pessoas cultas da primeira metade do século XVIII era dominado por duas fontes de autoridade quase incontestadas: os textos sagrados e os clássicos. Cada uma à sua maneira perpetuava a ideia de que a civilização tinha degenerado a partir de uma Idade de Ouro”. A preocupação mais racional do homem contemporâneo residia, por conseguinte, em estudar os antigos, felizes por regressarem ao tipo de sociedade que estes haviam conhecido. Os movimentos europeus – o Renascimento e a Reforma – tinham reforçado esta atitude e a autoridade dos textos sagrados. O Renascimento e a pedagogia humana tinham-se baseado amplamente numa renovação dos estudos gregos e latinos. Hampson refere-se à “ardente veneração de tudo o que se sentia pelos clássicos”.
No século XVIII, a principal característica reside assim na ofensiva vitoriosa contra o princípio da autoridade; seja qual for o vigor crítico do espírito humano, este, face ao desconhecido, tem necessidade de apoios, de tutores. Partindo do princípio de que a civilização dos Antigos foi perfeita, a verdade está contida nos seus escritos: Aristóteles para a filosofia, os gregos Hipócrates e Galeno para a medicina; Vitrúvio para a arquitectura, etc. Até mesmo no teatro irá descobrir-se na Antiguidade uma “regra das três unidades”, de lugar, de espaço e de tempo, sem a qual a peça não seria boa. A resistência aos Antigos surge como relativamente anódina em matéria de arte e literatura. É, pelo contrário, significativa no domínio científico. Ora, se é inegável que, no campo artístico, os Antigos e especialmente os Gregos são autores de obras-primas esculturais e arquitectónicas inultrapassáveis, nada prova que fosse impossível igualá-los, seguindo outras vias. Os homens chegaram, obscuramente, a esta conclusão. Enquanto a arte renascentista tentava, em certa medida, um retorno Às linhas antigas, assistiu-se ao nascimento, no século XVI, de um novo estilo artístico: o Barroco. O estilo barroco nasceria em Itália, a partir das experiências maneiristas de finais do século XVI, e viria a expandir-se rapidamente para outros países europeus, com manifestações na Arquitectura – sobretudo aí – e na literatura, na Ciência e nas artes plásticas e decorativas. Ora, sem prejuízo, de as outras manifestações serem de um interesse fascinante, centrar-nos-emos apenas nas artes plásticas, vulgo, na pintura, onde sobressai um nome que todos conhecemos, lapidar em toda a arte pictórica barroca: Caravaggio.
Pintor italiano, Michelangelo Merisi ficou conhecido como Caravaggio, o nome da aldeia onde nasceu em 1573, situada perto de Milão. Ficaria famoso pelas pinturas religiosas nas quais o contraste entre a luz e sombra na modelação dos corpos e dos espaços introduz uma atmosfera dramática de intensa espiritualidade. O Tocador de Alaúde e A Cigana que prevê o Futuro
contam-se entre os seus primeiros trabalhos, encomendados pelo Cardeal Francesco del Monte. A maturação do seu estilo começou com a decoração de uma capela em S. Luigi dei Francesi, em Roma, que provocou controvérsia. Os modelos das suas composições eram figuras vulgares, camponeses e membros das classes mais baixas. O realismo, a ousadia, a originalidade com que representava cenas religiosas levou à rejeição da obra pelo clero. A versão finalmente aceite de S. Mateus e o Anjo data de 1599. As primeiras versões de O Martírio de S. Pedro e A Conversão de S. Paulo, pintadas na capela de Santa Maria del Popolo em 1600, foram igualmente rejeitadas. A irreverência que caracterizava a sua obra fazia igualmente parte do seu carácter. Turbulento e desordeiro, viu-se obrigado a fugir à justiça em 1606, partindo para Nápoles. O seu périplo, assinalado por disputas e vinganças, conduziu-o de Nápoles a Malta, depois à Sicília e novamente a Nápoles, onde foi gravemente ferido. Acabou por morrer, em 1610, num pequeno porto toscano com um ataque de malária, contraída durante uma passagem pela prisão local, vítima de um mal-entendido. As últimas obras, realizadas em Malta e na Sicília, acentuam a simplicidade das formas e o poder dramático criado pelo contraste entre a luz e sombra. A sua influência é sobretudo assinalável nos artistas flamengos e holandeses, o que inclui Rubens e até Rembrandt e os pintores da escola de Utrecht. Vai ainda influenciar a pintura espanhola, designadamente Velásquez e Murillo.
A atitude artística de Caravaggio é de franca rebeldia em face dos convencionalismos da época.
O estranho realismo do pintor consiste não em copiar e observar a natureza, mas em contrapor o valor moral da prática ao valor intelectual da teoria. O aspecto mais notável da sua obra é – como dissemos - o tratamento da luz, que recebe o nome de tenebrismo. Consiste em projectar a luz sobre as formas com violência e em contraste intenso e brusco com as sombras. O seu precoce domínio dos efeitos claro-escuro viria marcar o início de uma das grandes conquistas da pintura barroca. Outra característica primordial do estilo caravaggiano é o naturalismo exacerbado como reacção face ao idealismo renascentista. Naturalismo que, por outro lado, não está em duelo com a grandiosidade da composição. A este interesse naturalista respondem quadros de costumes como Mulher a Tocar o Alaúde e Jogadores de Cartas, pintados na sua primeira época. A plenitude do seu estilo encontrar-se-á em cenas religiosas que trata com um naturalismo e um realismo quase insolentes. Tal é o caso de O Santo Enterro e de O Enterro da Virgem. Nesta última obra, a figura da Virgem é inspirada no cadáver de uma mulher afogada no Tibre e com o ventre inchado. A exposição pública deste quadro numa igreja choca com o gosto classicista imperante em Roma e tem que ser retirado. A influência de Caravaggio sente-se poderosamente em Itália e no resto da Europa durante todo o século XVII, e os seus seguidores continuam a cultivar o tenebrismo e o naturalismo no século seguinte.
Concluiremos portanto que Caravaggio se distingue
enquanto artista enigmático, fascinante e até perigoso. Tomando emprestada a imagem de pessoas comuns das ruas de Roma para retratar Maria e os apóstolos, tal facto não poderia deixar de ser imensamente polémico e controverso. Talvez tenha sido um dos primeiros artistas a saber conciliar a arte com o “ministério de Jesus”, que aconteceu exactamente entre pescadores, lavradores e prostitutas. Levou esse princípio estético às últimas consequências, a ponto de ter sido acusado de usar o corpo de uma prostituta retirada morta do rio Tibre, para pintar A Morte da Virgem. Esta foi, portanto, uma das duas mais importantes características das suas pinturas: retratar o aspecto mundano dos eventos bíblicos, usando o povo comum das ruas de Roma. A outra característica marcante foi a dimensão e o impacto realista que deu aos seus quadros, ao usar um fundo sempre obscuro, muitas vezes totalmente negro, e agrupar a cena em primeiro plano com um foco intenso de luz sobre os detalhes, geralmente os rostos. Este uso de sombras e luz é uma das coisas mais marcantes nos seus qua
dros que - de algum modo - nos atrai para dentro da cena. Não só a acção é dramática como também o modo como tal nos é dado ver, como a própria acção é montada. Repare-se na teatralidade dos gestos e no contraste cromático. Todos estes elementos convergem para a construção no sentido de espectáculo. Tudo isto faz da obra de Caravaggio uma obra absolutamente extraordinária e fascinante, que nos deslumbra ante cada quadro. Espero pois - numa viagem que empreenderei em breve a Londres – deleitar-me com algumas das suas pinturas, presentes na National Gallery, esperança essa que me levou desta vez a escrever sobre este Grande Mestre.
Os quadros que surgem ao longo do texto têm os seguintes títulos( por ordem de aparição):
1. Retrato de Caravaggio;
2.A Ceia em Emaús, de 1601;
3.O Tocador de Alaúde, de 1595;
4.Deusa da Boa Ventura, produzida entre 1595-1598;
5. Baco;
6. A coroação com espinhos, produzida entre 1602-1604;