13 março 2011

A CAUSA DAS COISAS - Miguel Esteves Cardoso



Comprei recentemente um livro de Miguel Esteves Cardoso -
A causa das coisas - por manifesta curiosidade e porque, não encontrando nada mais que me chamasse a atenção na livraria, achei que seria interessante. Do autor apenas conhecia uma ou outra citação memorável perdida em algum livro ou blogue. É impossível não ficar impressionado com a capacidade que Esteves Cardoso tem de nos definir enquanto povo que só sabe falar mal de si próprio. Desdenhar o que se tem e elogiar o que têm os outros - mas sem querer trocar - é a principal característica do aristocrático povo português. Miguel Esteves Cardoso é genial quando nos pinta o retrato. A causa das coisas é disso mesmo exemplo, reunindo cerca de 100 crónicas escritas pelo autor ao longo dos anos para o jornal Expresso. É justamente uma dessas crónicas que deixarei aqui transcritas e que muito prazer me deu ler.


Portugalite


Entre as afecções de boca dos portugueses que nem a pasta medicinal Couto pode curar, nenhuma há tão generalizada e galopante como a Portugalite. A Portugalite é uma inflamação nervosa que consiste em estar sempre a dizer mal de Portugal. É altamente contagiosa (transmite-se pela saliva) e até hoje não se descobriu cura.

A Portugalite é contraída por cada português logo que entra em contacto com Portugal. É uma doença não tanto venérea como venal. Para compreendê-la é necessário estudar a relação de cada português com Portugal. Esta relação é semelhante a uma outra que já é clássica na literatura. Suponhamos então que Portugal é fundamentalmente uma meretriz, mas que cada português está apaixonado por ela. Está sempre a dizer mal dela, o que é compreensível porque ela trata-o extremamente mal. Chega até a julgar que a odeia, porque não acha uma única razão para amá-la. Contudo, existem cinco sinais — típicos de qualquer grande e arrastada paixão — que demonstram que os portugueses, contra a vontade e contra a lógica, continuam apaixonados por ela, por muito afectadas que sejam as «bocas» que mandam.

Em primeiro lugar, estão sempre a falar dela. Como cada português é um amante atraiçoado e desgraçado pela mesma mulher, é natural que se junte aos demais para chorar a sua sorte e vilipendiar a causa comum de todos os seus males. Assim sempre se vão consolando uns aos outros. Bebem uns copos, chamam-lhes uns nomes, e confortam-se todos com o facto de não sofrerem sozinhos. Às vezes, para acentuar a tristeza, recordam-se dos bons velhos tempos em que Portugal, hoje megera ingrata que se vende na via (e na vida) pública, era uma namorada graciosa e senhora respeitada em todos os continentes. E, quando dez milhões de lágrimas caem para dentro do vinho tinto que seguram nas mãos, todos abanam as cabeças, dizendo em uníssono «e hoje é o que se sabe...».

Não é só o facto de não saberem nem poderem falar noutra coisa que prova a existência duma paixão. Como qualquer apaixonado arrependido, o português acha Portugal má como as cobras, mas... lindíssima. O facto de ser tão bonita de cara (as paisagens, as aldeias, a claridade, o clima) só torna a paixão mais trágica. O contraste entre a beleza à superfície e a vileza subterrânea dá maior acidez às lágrimas. É por isso que só há um tabu naquilo que se pode dizer de Portugal. Pode dizer-se que é bárbara e miserável, traiçoeira e ingrata, e tudo o mais que há de aviltante que se queira. O que não se pode dizer é «Portugal é um país feio». Nunca. Também neste aspecto se comprova a paixão.

Em terceiro lugar, os portugueses só deixam que outros portugueses digam mal de Portugal. Só quem sofreu nos braços dela (e que ela vai tratando ignobilmente a seu bel-prazer, por saber que nunca lhe hão-de fugir), se pode legitimamente queixar. Isto porque Portugal, sendo uma lindíssima meretriz, engata os estrangeiros descaradamente, desfazendo-se em encantos e seduções para com eles. Esta ideia exprime-se no dogma nacional que reza «Isto é bom é para os turistas», como quem diz «A viciosa da minha mulher a mim não me dá nada, mas atira-se a qualquer estranho que lhe apareça à frente». Qualquer estrangeiro que tenha a ousadia e o mau gosto de se fazer esquisito frente aos avanços despudorados de Portugal está condenado ao maior desagrado de todos.

Esta atitude é lógica, porque só há uma coisa pior do que se ser atraiçoado por quem se ama — é não se ser atraiçoado só porque o outro a acha feia e não a quer. À traição da mulher junta-se o insulto do outro, ao não achá-la sequer digna de um pequenino adultério. É como dizer-nos: «Não só estás apaixonado por uma pega, como ela é feia como breu.»

Os estrangeiros que nos visitam nunca compreendem isto. Lêem e ouvem dizer por todo o lado as maiores infâmias acerca de Portugal e não percebem porque é que todos lhe caem em cima no momento em que ele se atreve a dizer que um pastel de nata não está fresco, ou que tem a impressão de ter sido enganado no troco por um motorista de táxi.

Em quarto lugar, apesar do português passar o tempo a resmungar e a queixar-se quando está perto de Portugal, sabe-se o que lhe acontece quando está há muito tempo longe dela. Os grunhidos transformam-se em gemidos e as piscadelas de olho já não vencem senão lágrimas. E pensa invariavelmente: «Portugal é uma bruxa, mas antes mal tratada por ela do que bem por outra donzela...»

Em quinto e último lugar (e o «Quinto» não é fortuito), temos a derradeira prova da paixão do português por Portugal. Tem a ver com a ideia que ele tem do que Portugal podia ser. Para cada português, «isto podia ser o melhor país do mundo se...» (Segue-se uma condição invariavelmente impossível de se cumprir). A miragem deste país potencial é um paraíso que agrava substancialmente o inferno que os portugueses já supõem aturar. Isto porque os portugueses graças a Deus, têm expectativas elevadíssimas. Nada abaixo do Quinto-Império pode garantir satisfazê-los. Nenhum português se contenta, por exemplo, só com pertencer à Europa. Aliás, só começaria a contentar-se caso fosse a Europa toda a pertencer a Portugal. (E mesmo assim, qual não seria o português, com um cepticismo que provém de um longo e civilizadíssimo cansaço cultural, que não desconfiasse logo que «isto agora da Europa pertencer a Portugal traz água no bico, com certeza...?»)

Estas expectativas insaciáveis revelam-se na saudável mania que têm os portugueses de comparar Portugal só com a pequena minoria de países que se encontram em muito melhor situação. Para um português, Portugal é o país mais pobre do mundo. Isto é, do mundo «que interessa». Se lhe falarmos nos demais 75% que estão piores que nós, diz logo: «Está bem, mas isso nem se fala...» Nem é preciso ser a Nicarágua ou o Bangladesh — basta mencionar a Grécia ou a Turquia para ele se virar para nós com ar despeitoso e incrédulo e dizer: «Ó filho, está bem, mas isso...»

É curioso notar que a Espanha goza de um estatuto especial nestas comparações. Nem conta como «melhor» nem «pior». A Espanha é sempre até, e a frase «Até na Espanha...» tem o significado precioso de chamar a atenção para um país reconhecidamente rasca onde, neste ou naquele aspecto, já estão escandalosamente melhores do que em Portugal. De qualquer modo, os espanhóis não são como nós. Acham, por exemplo, que é motivo de orgulho ser-se espanhol. Nisso pelo menos, estão muito piores que nós. Entretanto, compreende-se que o difícil não é amar Portugal — o difícil é deixar de amá-lo, também porque é sempre difícil nós sermos felizes.


Miguel Esteves Cardoso, in 'A Causa das Coisas'

11 março 2011

O “Socialisme” de Godard

Jean-Luc Godard dispensa apresentações. O cineasta franco-suíço é um dos principais nomes da "Nouvelle Vague", assumidamente vanguardista, polémico, ágil e original quer na substância, quer na forma. Um homem do Maio de 68 que não saiu nem da ética, nem da estética desconstrutiva e provocadora que caracterizou esta geração. Um homem que insiste em demonstrar as perplexidades e contradições do século XX e que teima em provar que nenhuma verdade absoluta é absolutamente verdade.
É, pois, deste espírito irrequieto que nasce o "Film Socialisme”.
Com estreia nacional em Serralves a 6 de Março, pensei – mais uma vez – que não iria ter oportunidade de o assistir, periférico que estou (por livre escolha) no meio do Atlântico. Mas não… Ando cada vez mais enganado a este respeito. A periferia cultural dos Açores é, de facto, cada vez menor! E isto deve-se ao esforço não só de entidades públicas, como à persistente carolice de alguns. Desta feita, é ao “9500 CineClube de Ponta Delgada” que devo a possibilidade de ver este filme. Aqui fica o meu reconhecimento à instituição que há um ano vem fazendo o que muitos achavam impossível. Bem-haja!
Mas vamos ao que interessa: ao filme.
O filme é uma colagem de imagens, que nos remete para uma abordagem de “associação livre das ideias” ao estilo psicanalítico. A partir de um cruzeiro, que funciona como centro do mundo e da história, Godard vai propondo a rediscução de significados através de frases e imagens… Vão surgindo temas – política, Médio-Oriente, liberdade, igualdade, fraternidade – a partir de pequenas cenas sem grande nexo causal entre si, interrompidas por textos de diversos autores e em diversas línguas (do francês ao espanhol, do inglês ao alemão, do latim ao árabe…). No meio deste processo e tratando-se de um filme de duração de cerca de 100m, parece-me que Godard exige demais do espectador e não consegue discutir o que se propôs discutir: socialismo.
Enfim, tenho de confessar que fiquei um bocadinho decepcionado com o filme (sobretudo porque é de Godard que estamos a falar e o tema escolhido era aquele e não outro…).
Mas, ainda assim, acho que o filme vale a pena, enquanto poema visual, e que é digno de registo no contexto do cinema de autor que se produziu na Europa nos últimos tempos.

31 janeiro 2011

Do Alvorecer do Barroco: sobre a Obra do Grande Mestre Caravaggio

Torna-se uma tarefa por demais árdua expor num breve texto a verdadeira revolução que conhecerá ao longo de dois séculos o pensamento europeu, e apenas esse pensamento, sublinhe-se. No século XVII verificou-se uma ofensiva contra o princípio da autoridade. No século XVIII, esta ofensiva parece ter triunfado em todo o lado. Note-se o que escreveria o historiador inglês Norman Hampson, na sua obra O Século das Luzes: “ O horizonte intelectual da maioria das pessoas cultas da primeira metade do século XVIII era dominado por duas fontes de autoridade quase incontestadas: os textos sagrados e os clássicos. Cada uma à sua maneira perpetuava a ideia de que a civilização tinha degenerado a partir de uma Idade de Ouro”. A preocupação mais racional do homem contemporâneo residia, por conseguinte, em estudar os antigos, felizes por regressarem ao tipo de sociedade que estes haviam conhecido. Os movimentos europeus – o Renascimento e a Reforma – tinham reforçado esta atitude e a autoridade dos textos sagrados. O Renascimento e a pedagogia humana tinham-se baseado amplamente numa renovação dos estudos gregos e latinos. Hampson refere-se à “ardente veneração de tudo o que se sentia pelos clássicos”.

No século XVIII, a principal característica reside assim na ofensiva vitoriosa contra o princípio da autoridade; seja qual for o vigor crítico do espírito humano, este, face ao desconhecido, tem necessidade de apoios, de tutores. Partindo do princípio de que a civilização dos Antigos foi perfeita, a verdade está contida nos seus escritos: Aristóteles para a filosofia, os gregos Hipócrates e Galeno para a medicina; Vitrúvio para a arquitectura, etc. Até mesmo no teatro irá descobrir-se na Antiguidade uma “regra das três unidades”, de lugar, de espaço e de tempo, sem a qual a peça não seria boa. A resistência aos Antigos surge como relativamente anódina em matéria de arte e literatura. É, pelo contrário, significativa no domínio científico. Ora, se é inegável que, no campo artístico, os Antigos e especialmente os Gregos são autores de obras-primas esculturais e arquitectónicas inultrapassáveis, nada prova que fosse impossível igualá-los, seguindo outras vias. Os homens chegaram, obscuramente, a esta conclusão. Enquanto a arte renascentista tentava, em certa medida, um retorno Às linhas antigas, assistiu-se ao nascimento, no século XVI, de um novo estilo artístico: o Barroco. O estilo barroco nasceria em Itália, a partir das experiências maneiristas de finais do século XVI, e viria a expandir-se rapidamente para outros países europeus, com manifestações na Arquitectura – sobretudo aí – e na literatura, na Ciência e nas artes plásticas e decorativas. Ora, sem prejuízo, de as outras manifestações serem de um interesse fascinante, centrar-nos-emos apenas nas artes plásticas, vulgo, na pintura, onde sobressai um nome que todos conhecemos, lapidar em toda a arte pictórica barroca: Caravaggio.

Pintor italiano, Michelangelo Merisi ficou conhecido como Caravaggio, o nome da aldeia onde nasceu em 1573, situada perto de Milão. Ficaria famoso pelas pinturas religiosas nas quais o contraste entre a luz e sombra na modelação dos corpos e dos espaços introduz uma atmosfera dramática de intensa espiritualidade. O Tocador de Alaúde e A Cigana que prevê o Futuro contam-se entre os seus primeiros trabalhos, encomendados pelo Cardeal Francesco del Monte. A maturação do seu estilo começou com a decoração de uma capela em S. Luigi dei Francesi, em Roma, que provocou controvérsia. Os modelos das suas composições eram figuras vulgares, camponeses e membros das classes mais baixas. O realismo, a ousadia, a originalidade com que representava cenas religiosas levou à rejeição da obra pelo clero. A versão finalmente aceite de S. Mateus e o Anjo data de 1599. As primeiras versões de O Martírio de S. Pedro e A Conversão de S. Paulo, pintadas na capela de Santa Maria del Popolo em 1600, foram igualmente rejeitadas. A irreverência que caracterizava a sua obra fazia igualmente parte do seu carácter. Turbulento e desordeiro, viu-se obrigado a fugir à justiça em 1606, partindo para Nápoles. O seu périplo, assinalado por disputas e vinganças, conduziu-o de Nápoles a Malta, depois à Sicília e novamente a Nápoles, onde foi gravemente ferido. Acabou por morrer, em 1610, num pequeno porto toscano com um ataque de malária, contraída durante uma passagem pela prisão local, vítima de um mal-entendido. As últimas obras, realizadas em Malta e na Sicília, acentuam a simplicidade das formas e o poder dramático criado pelo contraste entre a luz e sombra. A sua influência é sobretudo assinalável nos artistas flamengos e holandeses, o que inclui Rubens e até Rembrandt e os pintores da escola de Utrecht. Vai ainda influenciar a pintura espanhola, designadamente Velásquez e Murillo.

A atitude artística de Caravaggio é de franca rebeldia em face dos convencionalismos da época. O estranho realismo do pintor consiste não em copiar e observar a natureza, mas em contrapor o valor moral da prática ao valor intelectual da teoria. O aspecto mais notável da sua obra é – como dissemos - o tratamento da luz, que recebe o nome de tenebrismo. Consiste em projectar a luz sobre as formas com violência e em contraste intenso e brusco com as sombras. O seu precoce domínio dos efeitos claro-escuro viria marcar o início de uma das grandes conquistas da pintura barroca. Outra característica primordial do estilo caravaggiano é o naturalismo exacerbado como reacção face ao idealismo renascentista. Naturalismo que, por outro lado, não está em duelo com a grandiosidade da composição. A este interesse naturalista respondem quadros de costumes como Mulher a Tocar o Alaúde e Jogadores de Cartas, pintados na sua primeira época. A plenitude do seu estilo encontrar-se-á em cenas religiosas que trata com um naturalismo e um realismo quase insolentes. Tal é o caso de O Santo Enterro e de O Enterro da Virgem. Nesta última obra, a figura da Virgem é inspirada no cadáver de uma mulher afogada no Tibre e com o ventre inchado. A exposição pública deste quadro numa igreja choca com o gosto classicista imperante em Roma e tem que ser retirado. A influência de Caravaggio sente-se poderosamente em Itália e no resto da Europa durante todo o século XVII, e os seus seguidores continuam a cultivar o tenebrismo e o naturalismo no século seguinte.

Concluiremos portanto que Caravaggio se distingue enquanto artista enigmático, fascinante e até perigoso. Tomando emprestada a imagem de pessoas comuns das ruas de Roma para retratar Maria e os apóstolos, tal facto não poderia deixar de ser imensamente polémico e controverso. Talvez tenha sido um dos primeiros artistas a saber conciliar a arte com o “ministério de Jesus”, que aconteceu exactamente entre pescadores, lavradores e prostitutas. Levou esse princípio estético às últimas consequências, a ponto de ter sido acusado de usar o corpo de uma prostituta retirada morta do rio Tibre, para pintar A Morte da Virgem. Esta foi, portanto, uma das duas mais importantes características das suas pinturas: retratar o aspecto mundano dos eventos bíblicos, usando o povo comum das ruas de Roma. A outra característica marcante foi a dimensão e o impacto realista que deu aos seus quadros, ao usar um fundo sempre obscuro, muitas vezes totalmente negro, e agrupar a cena em primeiro plano com um foco intenso de luz sobre os detalhes, geralmente os rostos. Este uso de sombras e luz é uma das coisas mais marcantes nos seus quadros que - de algum modo - nos atrai para dentro da cena. Não só a acção é dramática como também o modo como tal nos é dado ver, como a própria acção é montada. Repare-se na teatralidade dos gestos e no contraste cromático. Todos estes elementos convergem para a construção no sentido de espectáculo. Tudo isto faz da obra de Caravaggio uma obra absolutamente extraordinária e fascinante, que nos deslumbra ante cada quadro. Espero pois - numa viagem que empreenderei em breve a Londres – deleitar-me com algumas das suas pinturas, presentes na National Gallery, esperança essa que me levou desta vez a escrever sobre este Grande Mestre.


Os quadros que surgem ao longo do texto têm os seguintes títulos( por ordem de aparição):

1. Retrato de Caravaggio;

2.A Ceia em Emaús, de 1601;

3.O Tocador de Alaúde, de 1595;

4.Deusa da Boa Ventura, produzida entre 1595-1598;

5. Baco;

6. A coroação com espinhos, produzida entre 1602-1604;


29 janeiro 2011

Revisitar Sophia



Sophia foi, como já dissemos noutras circunstâncias, com a sua escrita e o seu exemplo, uma referência forte que fica para além dos jogos de palavras e das circunstâncias. "Depois de tantos séculos de pecado burguês, a nossa época rejeita a herança do pecado organizado. Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona a poesia do nosso tempo não aprendeu a ceder aos desastres. Há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema e que não pode aceitar uma ordem falsa" (Arte Poética III, 1964). Todos quantos se cruzaram com Sophia, são unânimes em reconhecer que a capacidade criadora e a sensibilidade artística excepcionais
se aliaram sempre a uma inteligência política arguta. Os seus discursos políticos mostram-no. Os seus combates recusavam a ambiguidade. “No Centro Nacional de Cultura fiz de tudo” – confessa-nos. Então “discutia-se tudo: os sistemas políticos, os problemas sociais, os problemas religiosos, o Corbusier, a pintura moderna, o surrealismo, o Fernando Pessoa, a literatura portuguesa, a literatura brasileira, a literatura americana, a guerra de África. À discussão cada um trazia o que sabia e também o que era”. “Às vezes a polícia política (PIDE) aparecia: um dia fez uma busca à procura de uns papéis que não encontrou porque o Francisco os tinha escondido no frigorífico”. E, afinal, nada era fácil, uma vez que não passava despercebido que “em certas sessões surgiam homens cinzentos e calados, com a gabardina abotoada até ao queixo e um ar simultaneamente taciturno e comprometido: ‘poker faced’”. E lembramo-nos do “Mar Novo” de 1958: “Porque os outros se mascaram mas tu não / Porque os outros usam a virtude para comprar o que não tem perdão / Porque os outros têm medo mas tu não”.


Excerto da alocução do Dr. Guilherme d'Oliveira Martins na abertura do Colóquio Internacional


A assinalar a doação do espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen à Biblioteca Nacional – acto oficial realizado no passado dia 26 de Janeiro – teve lugar, dias 27 e 28 deste mês, na Fundação Gulbenkian, o Colóquio Internacional Sophia de Mello Breyner Andresen, promovido e coordenado por Maria Andresen de Sousa Tavares com o apoio do Centro Nacional de Cultura. O colóquio contou com a participação de várias personalidades ilustres, que se têm dedicado de diversas maneiras à obra andreseniana. Entre eles destacaria nomes como Nuno Júdice, José Manuel dos Santos, Paula Morão, Carlos Mendes de Sousa, Frederico Lourenço, Fernando Martinho, António Tabucchi, entre outros não mencionados, mas igualmente notáveis. De todos eles tive ocasião de ouvir comunicações extraordinárias, que deram início a novas abordagens e a novas perspectivas do trabalho, essencialmente, poético de Shopia. Esta era uma oportunidade que jamais poderia perder. Sophia sempre foi, desde a minha tenra idade, a escritora e poetisa que mais me fascinou. Mulher de cultura, solidária, de permanente envolvimento cívico e político, constituiu sempre uma figura fascinante, cuja obra marca indelevelmente a riquíssima Literatura Portuguesa.

A realização deste colóquio vem justamente demonstrar e reafirmar a importância da obra da Autora no panorama literário, não só nacional, mas internacional. De resto, atesta isso mesmo a presença de professores, tradutores e investigadores, europeus e não só, neste encontro. A obra de Sophia continua a ser – e sê-lo-á, estou em crer, ad enternum – digna de estudo e de análise pela sua indiscutível riqueza. A sua prosa é um perfeito deleite, mas é a sua poesia que mais encanta e que mais seduz. Principalmente – e é claro que aqui ressalta a minha veia helenista – a poesia em que a civilização grega constitui uma presença recorrente nos versos de Sophia, através da sua crença profunda na união entre os deuses e a natureza, tal como outra dimensão da religiosidade, provinda da tradição bíblica e cristã.

Sophia admirou profundamente a Grécia, uma Grécia que aparece espelhada na sua obra, seja em poemas que glosam motivos helénicos - figuras históricas, figuras mitológicas, lugares carregados de significado histórico ou mítico -, seja naqueles que, dum modo mais geral, recuperam as noções clássicas de harmonia, inteireza e justiça. O retorno a um tempo arquetípico e primordial, anterior ao “tempo dividido” em que vivemos, é um dos veios fundamentais da obra poética de Sophia, que nele busca uma forma de religação do ser, uma aliança entre o homem e a natureza. As suas sucessivas viagens à Grécia, ao longo da vida, reforçaram esse veio, presente desde o livro Poesia (poemas “Dionysos”, “Apolo Musageta”) e recorrente nos volumes poéticos seguintes. O ensaio O Nu na Antiguidade Clássica, ajuda-nos a compreender melhor a identificação de Sophia com o mundo clássico: embora tenha como objecto a arte grega, e em particular a representação do corpo entre os gregos – assumindo especial importância a figura do Kouros -, pode ser lido como mais uma das “artes poéticas” em que a autora explicita algumas noções fundadoras da sua própria poesia. Isso mesmo viria dizer o Professor Gustavo Rubim, no colóquio, dissertando sobre aquele ensaio da Autora, adjectivando a sua obra de “ densa, tensa e intensa” e falando do Helenismo de Sophia como um elogio do classicismo.

Seria injusto desmerecer todas as outras comunicações feitas no colóquio, elogiando apenas aquelas que se centraram na inspiração clássica da Autora. Mas a verdade é que, não obstante o brilhantismo das novas reflexões sobre a obra andreseniana – o que foi dito sobre a temática clássica na poesia de Sophia, sobre o alimento buscado nas raízes greco-romanas da sua obra, foi de uma elevação ímpar e sublime. Por mais que envidasse um esforço no sentido de uma imparcialidade absoluta na análise deste encontro internacional, não conseguiria alcançar esse objectivo. A minha devoção e entrega totais à Hélade falará sempre mais alto e dominará a todo o momento a minha vida e a minha forma de pensar.

Seria de destacar a comunicação de Antonio Tabucchi -bom conhecedor da cultura grega clássica -, falando de uma viagem especial à Grécia em que revisitou alguns lugares celebrados por Sophia de Mello Breyner - Delfos, Templo de Poseidon, Cnossos, etc. -, revendo-os à luz do sentido simbólico que os versos da Autora lhes atribuíram. Pecará o meu texto por ficar muito aquém no que concerne a traçar um quadro fiel e rigoroso do que foi dito no colóquio. Verdade seja dita também que se me atrevesse a escrever sobre tudo, este texto ficaria maçudo e desinteressante, pelo que – creio – assim ficou mais agradável. Terminarei frisando que foi um verdadeiro êxtase participar neste evento, onde lamentavelmente – e sublinhe-se o advérbio de modo – entre o público jovem a assistir encontrava-me eu, um outro amigo e pouco mais. A esmagadora maioria da audiência era constituída por pessoas mais velhas o que me entristece imenso e é sintomático do quão alheada está a minha geração da Cultura. Perfeitamente desligada - com raríssimas excepções - da literatura, da filosofia, da história, portanto, de tudo que nos enobrece e eleva o espírito e nos alimenta a alma. Queiram os deuses – reunidos em douto concílio – que um dia isto mude e possamos despertar para a importância maior do Cultura e do conhecimento.

Termino, citando os versos lindíssimos do “Minotauro” de Sophia, que com a depuração, o equilíbrio e a limpidez da linguagem poética que marcam a sua obra, haveria de escrever:

“(…)Porque pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto,

Sem jamais perderem o fio de linho da palavra”

17 janeiro 2011

Uma incursão por Tornatore


"O cinema é um modo divino de contar a vida"

Frederico Fellini


Poderia voltar a escrever uma “ crítica literária” como já vem sendo hábito ultimamente, todavia decidi-me por outra espécie de crítica, se assim pudermos considerar: uma crítica cinematográfica absolutamente despretensiosa. Uma das minhas resoluções de ano novo era justamente tornar-me mais cinéfilo e foi nessa medida que decidi começar por um dos maiores cineastas italianos de sempre – Giuseppe Tornatore. Desde sempre que o Cinema exerceu sobre mim um fascínio peculiar, com os memoráveis clássicos da Disney. Desde que me lembro também o Cinema Francês sempre foi o meu dilecto. Sempre me ria a bom rir com os filmes do Le Gendarme , inesquecivelmente interpretados pelo genial Louis de Funès. Aliás tenho saudades de rever esses filmes e, de facto, um dia destes tenho de tirar tempo para o fazer. Enfim, perderia imenso tempo se tivesse que escrever aqui sobre as pérolas infinitas do fantástico Cinema Francês, mas não o farei aqui, quiçá noutro post. Aqui como, de resto, me propus, falarei de Tornatore, cineasta italiano nascido em 1956, um homem com uma filmografia de qualidade excepcional, onde encontramos o fascinante Cinema Paradiso ou o, não menos tocante, Malèna.

No que concerne ao Cinema Italiano creio que, no que toca à sua grandiosidade, poderemos indagar: “Palavras para quê?”. Nomes como Visconti, Fellini, Bertolucci, Pasolini, Moretti, Antonioni, entre muitos outros sonantes, marcaram indelevelmente o cinema europeu. Assim também o fez Tornatore quando deu ao mundo o aclamado Cinema Paradiso; um dos filmes mais belos e mais comoventes que alguma vez tive ocasião de ver. Cinema Paradiso é uma prova - rara - de como a simplicidade pode ser intensa. Um filme onde se constrói uma amizade forte e verdadeira, de profundo respeito e grande companheirismo e solidariedade; um filme sobre a infância, sobre os sonhos para o futuro, às vezes, ou muitas das vezes não realizados; um filme que toca e retrata todos os sentimentos humanos de uma forma única, portanto um filme universal e intemporal.

Tornatore faz obra-prima atrás de obra-prima e todos os seus filmes marcam pelo lirismo, pela poesia e pela comoção. Cinema Paradiso é um filme nostálgico e saudosista e por isso um filme completo, cuja história é a seguinte: Salvatore de Vitto, na infância conhecido como Toto, vive em Roma e é um cineasta famoso, que recebe a notícia de que Alfredo morreu; este era o projeccionista do Cinema Paradiso, na cidade natal de Toto, quando este ainda lá vivia, em criança. Toto relembra a infância na sua cidade natal e em especial o Cinema Paradiso, onde ia sempre e vivia na companhia do projeccionista Alfredo, bem mais velho, para não dizer já idoso naquela época. Alfredo fez com que Toto começasse a apreciar a Sétima Arte, fazendo com que este se decidisse, inclusive, pela carreira de cineasta. É a morte de Alfredo, anos mais tarde, que faz então Toto, já adulto, retornar à cidade natal para o enterro, relembrando maravilhado e nostálgico, a sua infância, a altura em que começou a apreciar uma das melhores coisas do mundo: o cinema! Toda a história é-nos revelada pela memória de Toto – já adulto – que se recorda da sua relação com Alfredo e de toda a sua infância, após receber a notícia da morte daquele. Cinema Paradiso é, sem dúvida alguma, um filme ímpar do cinema italiano e mundial. Ao mesmo tempo lírico e poético, é uma película verdadeiramente emocionante, sem nunca cair no melodrama barato. Nunca. A tónica colocada por Tornatore nas relações familiares e nas relações humanas - tema recorrente no cinema italiano - contribui inquestionavelmente para que nos apaixonemos pelo filme. Atesta o sucesso de Cinema Paradiso os muitos prémios e indicações que recebeu, tendo ganho, em 1990, um Óscar para Melhor Filme Estrangeiro.

Naturalmente que Tornatore não ficou apenas por aqui e brindou-nos ainda com filmes excepcionais como “Estamos todos bem” de 1990; “O Homem das Estrelas” de 1995; “A Lenda do Pianista do Mar” de 1998; “Malèna” de 2000 ou “Baarìa” de 2009, este último – dito pelo próprio – a sua obra mais autobiográfica e íntima. Por tudo isto e por muito mais recomenda-se vivamente aos leitores deste blogue que se tornem cinéfilos assíduos, apaixonados da belíssima Sétima Arte, que nos tem dado, desde inícios do século XX, filmes soberbamente maravilhosos. Em jeito de conclusão, permitam apenas que deixe abaixo algumas sugestões de filmes, de alguns dos maiores cineastas italianos, e que me marcaram ou têm marcado profundamente:


Federico Fellini - Amarcord, Roma, Satyricon, 8 e meio, La Dolce Vita
Luchino Visconti - Il gatopardo, Morte em Veneza, Rocco e os Seus Irmãos
Bernardo Bertolucci - 1900
Ettore Scola - Feios, Porcos e Maus
Pasolini - Salo ou os 120 dias de Sodoma
Dino Risi - Perfume de Mulher
Nanni Moretti - O quarto do Filho
Marco Ferreri - A Grande Farra
Roberto Rosselini - Viagem a Itália
Vittorio de Sica - Ladrões de Bicicletas
Giuseppe Tornatore - Cinema Paraíso
Marco Bellochio - O Diabo no Corpo
Antonioni - Blow-up
Roberto Benigni - A vida é Bela
Gabriele Salvatores - Mediterraneo