29 janeiro 2011

Revisitar Sophia



Sophia foi, como já dissemos noutras circunstâncias, com a sua escrita e o seu exemplo, uma referência forte que fica para além dos jogos de palavras e das circunstâncias. "Depois de tantos séculos de pecado burguês, a nossa época rejeita a herança do pecado organizado. Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona a poesia do nosso tempo não aprendeu a ceder aos desastres. Há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema e que não pode aceitar uma ordem falsa" (Arte Poética III, 1964). Todos quantos se cruzaram com Sophia, são unânimes em reconhecer que a capacidade criadora e a sensibilidade artística excepcionais
se aliaram sempre a uma inteligência política arguta. Os seus discursos políticos mostram-no. Os seus combates recusavam a ambiguidade. “No Centro Nacional de Cultura fiz de tudo” – confessa-nos. Então “discutia-se tudo: os sistemas políticos, os problemas sociais, os problemas religiosos, o Corbusier, a pintura moderna, o surrealismo, o Fernando Pessoa, a literatura portuguesa, a literatura brasileira, a literatura americana, a guerra de África. À discussão cada um trazia o que sabia e também o que era”. “Às vezes a polícia política (PIDE) aparecia: um dia fez uma busca à procura de uns papéis que não encontrou porque o Francisco os tinha escondido no frigorífico”. E, afinal, nada era fácil, uma vez que não passava despercebido que “em certas sessões surgiam homens cinzentos e calados, com a gabardina abotoada até ao queixo e um ar simultaneamente taciturno e comprometido: ‘poker faced’”. E lembramo-nos do “Mar Novo” de 1958: “Porque os outros se mascaram mas tu não / Porque os outros usam a virtude para comprar o que não tem perdão / Porque os outros têm medo mas tu não”.


Excerto da alocução do Dr. Guilherme d'Oliveira Martins na abertura do Colóquio Internacional


A assinalar a doação do espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen à Biblioteca Nacional – acto oficial realizado no passado dia 26 de Janeiro – teve lugar, dias 27 e 28 deste mês, na Fundação Gulbenkian, o Colóquio Internacional Sophia de Mello Breyner Andresen, promovido e coordenado por Maria Andresen de Sousa Tavares com o apoio do Centro Nacional de Cultura. O colóquio contou com a participação de várias personalidades ilustres, que se têm dedicado de diversas maneiras à obra andreseniana. Entre eles destacaria nomes como Nuno Júdice, José Manuel dos Santos, Paula Morão, Carlos Mendes de Sousa, Frederico Lourenço, Fernando Martinho, António Tabucchi, entre outros não mencionados, mas igualmente notáveis. De todos eles tive ocasião de ouvir comunicações extraordinárias, que deram início a novas abordagens e a novas perspectivas do trabalho, essencialmente, poético de Shopia. Esta era uma oportunidade que jamais poderia perder. Sophia sempre foi, desde a minha tenra idade, a escritora e poetisa que mais me fascinou. Mulher de cultura, solidária, de permanente envolvimento cívico e político, constituiu sempre uma figura fascinante, cuja obra marca indelevelmente a riquíssima Literatura Portuguesa.

A realização deste colóquio vem justamente demonstrar e reafirmar a importância da obra da Autora no panorama literário, não só nacional, mas internacional. De resto, atesta isso mesmo a presença de professores, tradutores e investigadores, europeus e não só, neste encontro. A obra de Sophia continua a ser – e sê-lo-á, estou em crer, ad enternum – digna de estudo e de análise pela sua indiscutível riqueza. A sua prosa é um perfeito deleite, mas é a sua poesia que mais encanta e que mais seduz. Principalmente – e é claro que aqui ressalta a minha veia helenista – a poesia em que a civilização grega constitui uma presença recorrente nos versos de Sophia, através da sua crença profunda na união entre os deuses e a natureza, tal como outra dimensão da religiosidade, provinda da tradição bíblica e cristã.

Sophia admirou profundamente a Grécia, uma Grécia que aparece espelhada na sua obra, seja em poemas que glosam motivos helénicos - figuras históricas, figuras mitológicas, lugares carregados de significado histórico ou mítico -, seja naqueles que, dum modo mais geral, recuperam as noções clássicas de harmonia, inteireza e justiça. O retorno a um tempo arquetípico e primordial, anterior ao “tempo dividido” em que vivemos, é um dos veios fundamentais da obra poética de Sophia, que nele busca uma forma de religação do ser, uma aliança entre o homem e a natureza. As suas sucessivas viagens à Grécia, ao longo da vida, reforçaram esse veio, presente desde o livro Poesia (poemas “Dionysos”, “Apolo Musageta”) e recorrente nos volumes poéticos seguintes. O ensaio O Nu na Antiguidade Clássica, ajuda-nos a compreender melhor a identificação de Sophia com o mundo clássico: embora tenha como objecto a arte grega, e em particular a representação do corpo entre os gregos – assumindo especial importância a figura do Kouros -, pode ser lido como mais uma das “artes poéticas” em que a autora explicita algumas noções fundadoras da sua própria poesia. Isso mesmo viria dizer o Professor Gustavo Rubim, no colóquio, dissertando sobre aquele ensaio da Autora, adjectivando a sua obra de “ densa, tensa e intensa” e falando do Helenismo de Sophia como um elogio do classicismo.

Seria injusto desmerecer todas as outras comunicações feitas no colóquio, elogiando apenas aquelas que se centraram na inspiração clássica da Autora. Mas a verdade é que, não obstante o brilhantismo das novas reflexões sobre a obra andreseniana – o que foi dito sobre a temática clássica na poesia de Sophia, sobre o alimento buscado nas raízes greco-romanas da sua obra, foi de uma elevação ímpar e sublime. Por mais que envidasse um esforço no sentido de uma imparcialidade absoluta na análise deste encontro internacional, não conseguiria alcançar esse objectivo. A minha devoção e entrega totais à Hélade falará sempre mais alto e dominará a todo o momento a minha vida e a minha forma de pensar.

Seria de destacar a comunicação de Antonio Tabucchi -bom conhecedor da cultura grega clássica -, falando de uma viagem especial à Grécia em que revisitou alguns lugares celebrados por Sophia de Mello Breyner - Delfos, Templo de Poseidon, Cnossos, etc. -, revendo-os à luz do sentido simbólico que os versos da Autora lhes atribuíram. Pecará o meu texto por ficar muito aquém no que concerne a traçar um quadro fiel e rigoroso do que foi dito no colóquio. Verdade seja dita também que se me atrevesse a escrever sobre tudo, este texto ficaria maçudo e desinteressante, pelo que – creio – assim ficou mais agradável. Terminarei frisando que foi um verdadeiro êxtase participar neste evento, onde lamentavelmente – e sublinhe-se o advérbio de modo – entre o público jovem a assistir encontrava-me eu, um outro amigo e pouco mais. A esmagadora maioria da audiência era constituída por pessoas mais velhas o que me entristece imenso e é sintomático do quão alheada está a minha geração da Cultura. Perfeitamente desligada - com raríssimas excepções - da literatura, da filosofia, da história, portanto, de tudo que nos enobrece e eleva o espírito e nos alimenta a alma. Queiram os deuses – reunidos em douto concílio – que um dia isto mude e possamos despertar para a importância maior do Cultura e do conhecimento.

Termino, citando os versos lindíssimos do “Minotauro” de Sophia, que com a depuração, o equilíbrio e a limpidez da linguagem poética que marcam a sua obra, haveria de escrever:

“(…)Porque pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto,

Sem jamais perderem o fio de linho da palavra”

17 janeiro 2011

Uma incursão por Tornatore


"O cinema é um modo divino de contar a vida"

Frederico Fellini


Poderia voltar a escrever uma “ crítica literária” como já vem sendo hábito ultimamente, todavia decidi-me por outra espécie de crítica, se assim pudermos considerar: uma crítica cinematográfica absolutamente despretensiosa. Uma das minhas resoluções de ano novo era justamente tornar-me mais cinéfilo e foi nessa medida que decidi começar por um dos maiores cineastas italianos de sempre – Giuseppe Tornatore. Desde sempre que o Cinema exerceu sobre mim um fascínio peculiar, com os memoráveis clássicos da Disney. Desde que me lembro também o Cinema Francês sempre foi o meu dilecto. Sempre me ria a bom rir com os filmes do Le Gendarme , inesquecivelmente interpretados pelo genial Louis de Funès. Aliás tenho saudades de rever esses filmes e, de facto, um dia destes tenho de tirar tempo para o fazer. Enfim, perderia imenso tempo se tivesse que escrever aqui sobre as pérolas infinitas do fantástico Cinema Francês, mas não o farei aqui, quiçá noutro post. Aqui como, de resto, me propus, falarei de Tornatore, cineasta italiano nascido em 1956, um homem com uma filmografia de qualidade excepcional, onde encontramos o fascinante Cinema Paradiso ou o, não menos tocante, Malèna.

No que concerne ao Cinema Italiano creio que, no que toca à sua grandiosidade, poderemos indagar: “Palavras para quê?”. Nomes como Visconti, Fellini, Bertolucci, Pasolini, Moretti, Antonioni, entre muitos outros sonantes, marcaram indelevelmente o cinema europeu. Assim também o fez Tornatore quando deu ao mundo o aclamado Cinema Paradiso; um dos filmes mais belos e mais comoventes que alguma vez tive ocasião de ver. Cinema Paradiso é uma prova - rara - de como a simplicidade pode ser intensa. Um filme onde se constrói uma amizade forte e verdadeira, de profundo respeito e grande companheirismo e solidariedade; um filme sobre a infância, sobre os sonhos para o futuro, às vezes, ou muitas das vezes não realizados; um filme que toca e retrata todos os sentimentos humanos de uma forma única, portanto um filme universal e intemporal.

Tornatore faz obra-prima atrás de obra-prima e todos os seus filmes marcam pelo lirismo, pela poesia e pela comoção. Cinema Paradiso é um filme nostálgico e saudosista e por isso um filme completo, cuja história é a seguinte: Salvatore de Vitto, na infância conhecido como Toto, vive em Roma e é um cineasta famoso, que recebe a notícia de que Alfredo morreu; este era o projeccionista do Cinema Paradiso, na cidade natal de Toto, quando este ainda lá vivia, em criança. Toto relembra a infância na sua cidade natal e em especial o Cinema Paradiso, onde ia sempre e vivia na companhia do projeccionista Alfredo, bem mais velho, para não dizer já idoso naquela época. Alfredo fez com que Toto começasse a apreciar a Sétima Arte, fazendo com que este se decidisse, inclusive, pela carreira de cineasta. É a morte de Alfredo, anos mais tarde, que faz então Toto, já adulto, retornar à cidade natal para o enterro, relembrando maravilhado e nostálgico, a sua infância, a altura em que começou a apreciar uma das melhores coisas do mundo: o cinema! Toda a história é-nos revelada pela memória de Toto – já adulto – que se recorda da sua relação com Alfredo e de toda a sua infância, após receber a notícia da morte daquele. Cinema Paradiso é, sem dúvida alguma, um filme ímpar do cinema italiano e mundial. Ao mesmo tempo lírico e poético, é uma película verdadeiramente emocionante, sem nunca cair no melodrama barato. Nunca. A tónica colocada por Tornatore nas relações familiares e nas relações humanas - tema recorrente no cinema italiano - contribui inquestionavelmente para que nos apaixonemos pelo filme. Atesta o sucesso de Cinema Paradiso os muitos prémios e indicações que recebeu, tendo ganho, em 1990, um Óscar para Melhor Filme Estrangeiro.

Naturalmente que Tornatore não ficou apenas por aqui e brindou-nos ainda com filmes excepcionais como “Estamos todos bem” de 1990; “O Homem das Estrelas” de 1995; “A Lenda do Pianista do Mar” de 1998; “Malèna” de 2000 ou “Baarìa” de 2009, este último – dito pelo próprio – a sua obra mais autobiográfica e íntima. Por tudo isto e por muito mais recomenda-se vivamente aos leitores deste blogue que se tornem cinéfilos assíduos, apaixonados da belíssima Sétima Arte, que nos tem dado, desde inícios do século XX, filmes soberbamente maravilhosos. Em jeito de conclusão, permitam apenas que deixe abaixo algumas sugestões de filmes, de alguns dos maiores cineastas italianos, e que me marcaram ou têm marcado profundamente:


Federico Fellini - Amarcord, Roma, Satyricon, 8 e meio, La Dolce Vita
Luchino Visconti - Il gatopardo, Morte em Veneza, Rocco e os Seus Irmãos
Bernardo Bertolucci - 1900
Ettore Scola - Feios, Porcos e Maus
Pasolini - Salo ou os 120 dias de Sodoma
Dino Risi - Perfume de Mulher
Nanni Moretti - O quarto do Filho
Marco Ferreri - A Grande Farra
Roberto Rosselini - Viagem a Itália
Vittorio de Sica - Ladrões de Bicicletas
Giuseppe Tornatore - Cinema Paraíso
Marco Bellochio - O Diabo no Corpo
Antonioni - Blow-up
Roberto Benigni - A vida é Bela
Gabriele Salvatores - Mediterraneo

15 janeiro 2011

L'étranger - Albert Camus

"Sentou-se na cama e explicou-me que tinham andado a investigar a minha vida privada. Tinham descoberto que a minha mãe morrera recentemente no asilo. Procedera-se então a um inquérito em Marengo. Os investigadores tinham sabido que eu «dera provas de insensibilidade» no dia do enterro. «Veja se compreende», disse o advogado, «custa-me um bocado perguntar-lhe isto. Mas é muito importante. E será um grande argumento para a acusação, se eu não conseguir dar resposta». Queria que eu o ajudasse. Perguntou-me se eu, nesse dia, tinha tido pena da minha mãe. Esta pergunta muito me espantou, e parecia-me que não era capaz de a fazer a alguém. Não obstante, respondi que perdera um pouco o hábito de me interrogar a mim mesmo, e que era difícil dar-lhe uma resposta. É claro que gostava da minha mãe, mas isso não queria dizer nada. Todos os seres saudáveis tinham, em certas ocasiões, desejado, mais ou menos, a morte das pessoas que amavam. Aqui, o advogado cortou-me a palavra e mostrou-se muito agitado. Obrigou-me a prometer que não diria isto na audiência, nem ao juiz de instrução. Expliquei-lhe, no entanto, que a minha natureza era feita de tal modo que as minhas necessidades físicas perturbavam frequentemente os meus sentimentos. No dia do enterro, estava muito cansado e com muito sono, de forma que não dei lá muito bem pelo que se passou. O que podia afirmar, com toda a certeza, era que preferia que a mãe não tivesse morrido. Mas o advogado não ficou contente. Disse: «Isso não chega»."


Extracto de L'étranger


Já vai sendo tempo de escrever qualquer coisa no Ex Libris. O início de ano, com os exames a decorrer, não me permitiu antes escrever um novo post, pelo que a esta altura, agora com algum tempo para o fazer, faço-o com especial gosto. Desta vez é sobre Camus e o seu livro L'étranger que me proponho escrever. Uma obra, cuja leitura fiz há cerca de um ano atrás, muito importante na compreensão de um dos aspectos mais importantes, se não mesmo o aspecto fundamental, da sua filosofia: o absurdo.
L'étranger constitui indubitavelmente uma das obras centrais daquilo a que se chama a grande literatura existencialist
a francesa, ainda que o próprio Camus rejeite a classificação de L'étranger como um romance existencial. L'étranger é um livro sobre a hipocrisia do ser humano, que utiliza os sentimentos como forma de manipulação e de conquista do poder. É um grito de revolta contra uma sociedade que oprime aqueles que defendem a verdade até ao fim; de grande conteúdo filosófico, trata-se de um marco na literatura do século XX, sem deixar de ser uma história simples e acessível a qualquer leitor. Em linhas gerais a história que nos aparece em L'étranger é a seguinte:
Um homem aparentemente normal e com uma vida vulgar na Argélia de meados do século XX,- Mersault - recebe a morte da mãe sem sentir qualquer consternação, mostrando-se indiferente à cerimónia de vigília e enterro. E logo no dia seguinte diverte-se com uma nova amante sem sentir quaisquer remorsos. Frequentador dos pequenos prazeres da vida, vivendo uma felicidade morna no seu quotidiano que muito aprecia, abstinente dos grandes compromissos e das grandes ambições, o que estranha quer a sua amante - que numa proposta de casamento Mersault lhe responde que «tanto faz» - quer o seu patrão - que numa proposta de promoção para uma colocação em Paris aquele igualmente lhe responde que «tanto faz» - enreda-se sem querer num conflito entre um seu amigo e uns árabes, e, num momento infeliz em que se encontra extremamente perturbado por um grande sol e calor, mas sem estar movido por nenhuma animosidade sentimental em especial, mata um deles.

Nas conversas com o advogado e o juiz de instrução e no julgamento que se segue, Mersault deixa todos exasperados pelo facto de não assumir qualquer sentimento de culpa ou remorso perante os seus actos «imorais», com maior ênfase no episódio do enterro da mãe do que no próprio assassínio pelo qual é julgado e pela heresia do não reconhecimento de Deus como salvador da sua alma. A suprema indiferença pelos supostamente elevados «valores» humanos e sociais, a coberto de uma inocência velada que se sente na personagem, expurgada e livre dos antanhos responsáveis pela vida angustiada da maioria da Humanidade (temente ao Homem e à divindade, mas castigada sempre em primeiro lugar pelo Homem) revela em Mersault um homem absurdo, um estrangeiro no seu próprio meio, que sensível ao presente e ao dia -a- dia, desfruta-o o melhor possível. Inconsciente, mas lucidamente não consegue aderir às normas de convívio em sociedade conquanto absurdas lhe parecem, considerado ele próprio absurdo por essa sociedade e, por essa razão, condenado sem apelo nem agravo.

A edição que tive ocasião de ler - da Editora Livros do Brasil - é magnificamente prefaciada por Jean-Paul Sartre, sendo que desse texto introdutório destacaria o seguinte excerto:

Camus, em «O Mito de Sísifo» publicado alguns meses depois, deu-nos o comentário exacto da sua obra: o seu herói não era bom nem mau, nem moral nem imoral. Tais categorias não lhe convêm: faz parte de uma espécie muito singular, à qual o autor reserva o nome de absurdo. Mas, sob a pena de Camus, essa palavra adquire duas significações muito diferentes: absurdo é, ao mesmo tempo, um estado de facto e a consciência lúcida que certas pessoas tomam desse estado. É «absurdo» o homem que, de um absurdo fundamental, tira incansavelmente as conclusões que se impõem. Há aí um deslocamento de sentido igual ao que ocorre quando se chama «swing» uma juventude que dança o swing. O que é então o absurdo como estado de facto, como dado original? Nada menos do que a relação do homem com o mundo. O absurdo fundamental manifesta, antes de tudo, um divórcio: o divórcio entre as aspirações do homem à unidade e o dualismo intransponível do espírito e da natureza, entre o impulso do homem em direcção ao eterno e o carácter finito da sua existência, entre a «preocupação» que é a sua própria essência e a inutilidade dos seus esforços. A morte, o pluralismo irredutível das verdades e dos seres, a ininteligibilidade do real, o acaso, eis os pólos do absurdo.

Sem dúvida, uma obra-prima da literatura universal e de leitura fundamental. Camus constitui - é inegável - um artista ímpar na concepção da palavra por influir nos sentimentos do leitor, ainda que estes possam ser de repugno ante a leitura. Com uma linguagem rápida e objectiva, Camus junta-se a um Kafka ou a um Dostoiévski no coro de questionamentos aos valores morais do mundo. Os três conseguem subverter aquilo que é mais valioso para os homens. Mostram como toda a estrutura social – instituições, leis, religiões, ideologias – é frágil, parecendo absurdo até mesmo para uma obra de ficção, mas, ainda assim, incapaz de causar revolta a quem vê dessa forma. Enfim, em L'étranger podemos vaguear entre os extremos dos sentimentos e a incompreensão, sendo verdadeiramente aí que reside a genialidade desta obra.




Fica como sugestão de leitura sobre a vida e obra de Camus o seguinte link

http://filosofocamus.sites.uol.com.br/CAMUS.htm

22 dezembro 2010

Dos Cortes à Compensação



Tenho ouvido, com algum pasmo, alguns reputados juristas da nação falar da inconstitucionalidade da remuneração compensatória que cobrirá integralmente a perda de vencimento dos funcionários da administração pública regional.
E ainda mais pasmo fico quando o Representante da República, ao exercer o seu direito de veto político nesta matéria, não se exime de fazer considerações jurídicas sobre a constitucionalidade da medida.
Não obstante o veto político do Representante da República ao Orçamento Regional afastar a possibilidade de fiscalização preventiva depois da confirmação do diploma pela ALRAA, nada impede que a questão da constitucionalidade seja colocada a título sucessivo.
Falemos então de inconstitucionalidades. Mas falemos de tudo, não apenas de algumas coisas que só servem concepções arcaicas e centralistas que em nada se suportam constitucionalmente.
Quando vejo José Sócrates inserir no Orçamento de Estado uma norma que determina o abaixamento unilateral e generalizado das remunerações dos trabalhadores da Administração Pública e a manutenção desse abaixamento por um período plurianual, ultrapassando portanto todos os limites do ano económico, fico perplexo ao verificar que estes mesmos zeladores da constituição não abram a boca para dizer rigorosamente nada acerca inconstitucionalidade material clara (por violação dos artigos 105º, nºs 1 e 3 e 106º, nº 1 da Constituição) que tal norma representa.
A estes constitucionalistas não impressionou que tal norma comprometesse as legítimas expectativas à integralidade e não redutibilidade remuneratória com base nas quais os trabalhadores visados oportunamente fizeram as suas opções e contraíram as suas obrigações. A eles não impressiona que de forma violenta, grave e desproporcionada se afectasse situações jurídicas anteriormente constituídas e se fizesse tábua rasa do princípio da confiança ínsito na ideia de Estado de direito (artigo 2º da CRP), nem tão pouco que esta norma consubstanciasse uma verdadeira restrição ou suspensão dum direito constitucional fundamental: o direito ao salário, consagrado no artigo 59º, nº 1 al. a) da CRP.
Estes exímios constitucionalistas só conseguiram ver inconstitucionalidades numa norma que repõe a justiça salarial nos Açores, numa opção política clara de encontrar soluções para a crise económica que não passam exclusivamente pelo sacrifício das pessoas e do seu nível de vida.
O que Carlos César provou é que havia outras opções e que não estão verificados os pressupostos da redução salarial que princípio da necessidade impõe nestas situações. É isto que incomoda tanto Lisboa, os Cavacos, os Sócrates, os Marcelos, os Jorges Mirandas e, por fim, o Representante da República… é isto que incomoda os arautos das teses neoliberais. Atrapalha a atitude de César, porque põe a nú a hipocrisia dos governantes que exigem sacrifícios do salário, emprego, saúde, segurança social de todos os portugueses, mas que ao mesmo tempo não exigem sacrifícios com as mais-valias e dividendos de alguns privilegiados.
Falemos claro, porque é isto que está em causa!
Os Açores têm autonomia política e financeira e as opções feitas são-no no quadro dos seus poderes e prerrogativas constitucionais e estatutárias. A medida em questão não custa um cêntimo a mais que seja ao Estado; trata-se apenas de uma opção legítima e justa que o Estado não soube fazer no seu Orçamento e que os Açores, sacrificando outros investimentos, se viram obrigados a compensar. Considerar isto uma violação dos princípios da igualdade e da solidariedade nacional é não perceber as bases do regime autonómico, fundado nas especificidades geográficas, económicas, sociais e culturais das populações insulares (artigo 225.º, n.º 1 CRP). Quem não tiver imaginação para mais, basta que pense que os custos nos Açores não são iguais aos do continente, nem tão pouco aos da Madeira (que tem apenas duas ilhas), e que uma redução salarial poderia conduzir a uma fuga de cérebros para sítios onde estes constrangimentos não se verificam. E é justamente por esta razão que o próprio Estado confere subsídios aos funcionários da administração central que trabalham nos Açores. Ou não é assim? Falar de falta de solidariedade dos Açores para com o restante país ou é brincadeira ou é ultraje: Brincadeira, porque se as opções fossem outras não reverteria um cêntimo que seja para o OE; Ultraje, porque há uma pesada factura histórica da República para com a Região que está longe de estar paga… Haja coerência!
Por todas estas razões só posso concluir que este “alevanto” político e jurídico contra as medidas do Governo dos Açores não são mais que uma tentativa de desviar as atenções dos problemas constitucionais do próprio OE, apontar o dedo à Autonomia como “bode expiatório” dos problemas estruturais do país e atacar aqueles que, como César, ainda acreditam no modelo social de Estado.

21 dezembro 2010

O RECOMEÇAR DO FILHO DO HOMEM

René Magritte, Le fil's de l'homme
Recomeça...
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...


Miguel Torga


Nas palavras do próprio pintor, “o homem do chapéu de coco é o Sr. Normal, no seu anonimato. Eu também uso um; não tenho vontade de me destacar das massas.” Em Magritte assiste-se a uma comum vontade de assim permanecer: comum. O insólito cresce quando observamos cada não-rosto. O que aqui se tenta é demonstrar que cada traço facial por ele pintado esconde um conjunto de sentimentos que o artista não deseja manifestar. Trata-se então de uma camuflagem que se estende das roupas ao rosto. Um intimista, de facto, mas que só em segredo diz algo sobre si. Se o anonimato só for conseguido à custa de uma redonda maçã verde, que assim seja.
Mas o “Recomeçar” de Torga dá um novo sentido à maçã verde: “De nenhum fruto queiras só metade”. O Sr. Normal quer também saborear a sua vida em toda a sua inteireza, sem nunca se saciar, mesmo que vá colhendo ilusões atrás de ilusões. O segredo está em fazê-lo sem angústia e sem pressas. Só assim se consegue que os passos rumo ao futuro, num caminho obviamente duro, sejam dados em liberdade.
Não o fazer é perder a consciência de si e da sua própria humanidade. Permitir que a loucura deixe de ser nossa para passarmos a ser da loucura. Porque a loucura só é nossa enquanto, com lucidez, nela nos reconheçamos.

Feliz Natal!


É, para mim, uma das músicas mais bonitas do Natal: Adeste Fidelis. Através dela gostaria de desejar a todos os caríssimos leitores deste blogue, em meu nome e julgo que posso fazê-lo também em nome dos outros autores, um Feliz e Santo Natal e votos de um Próspero e Venturoso Novo Ano, repleto de tudo aquilo que de melhor a vida nos pode dar. Tudo de bom!