15 janeiro 2011

L'étranger - Albert Camus

"Sentou-se na cama e explicou-me que tinham andado a investigar a minha vida privada. Tinham descoberto que a minha mãe morrera recentemente no asilo. Procedera-se então a um inquérito em Marengo. Os investigadores tinham sabido que eu «dera provas de insensibilidade» no dia do enterro. «Veja se compreende», disse o advogado, «custa-me um bocado perguntar-lhe isto. Mas é muito importante. E será um grande argumento para a acusação, se eu não conseguir dar resposta». Queria que eu o ajudasse. Perguntou-me se eu, nesse dia, tinha tido pena da minha mãe. Esta pergunta muito me espantou, e parecia-me que não era capaz de a fazer a alguém. Não obstante, respondi que perdera um pouco o hábito de me interrogar a mim mesmo, e que era difícil dar-lhe uma resposta. É claro que gostava da minha mãe, mas isso não queria dizer nada. Todos os seres saudáveis tinham, em certas ocasiões, desejado, mais ou menos, a morte das pessoas que amavam. Aqui, o advogado cortou-me a palavra e mostrou-se muito agitado. Obrigou-me a prometer que não diria isto na audiência, nem ao juiz de instrução. Expliquei-lhe, no entanto, que a minha natureza era feita de tal modo que as minhas necessidades físicas perturbavam frequentemente os meus sentimentos. No dia do enterro, estava muito cansado e com muito sono, de forma que não dei lá muito bem pelo que se passou. O que podia afirmar, com toda a certeza, era que preferia que a mãe não tivesse morrido. Mas o advogado não ficou contente. Disse: «Isso não chega»."


Extracto de L'étranger


Já vai sendo tempo de escrever qualquer coisa no Ex Libris. O início de ano, com os exames a decorrer, não me permitiu antes escrever um novo post, pelo que a esta altura, agora com algum tempo para o fazer, faço-o com especial gosto. Desta vez é sobre Camus e o seu livro L'étranger que me proponho escrever. Uma obra, cuja leitura fiz há cerca de um ano atrás, muito importante na compreensão de um dos aspectos mais importantes, se não mesmo o aspecto fundamental, da sua filosofia: o absurdo.
L'étranger constitui indubitavelmente uma das obras centrais daquilo a que se chama a grande literatura existencialist
a francesa, ainda que o próprio Camus rejeite a classificação de L'étranger como um romance existencial. L'étranger é um livro sobre a hipocrisia do ser humano, que utiliza os sentimentos como forma de manipulação e de conquista do poder. É um grito de revolta contra uma sociedade que oprime aqueles que defendem a verdade até ao fim; de grande conteúdo filosófico, trata-se de um marco na literatura do século XX, sem deixar de ser uma história simples e acessível a qualquer leitor. Em linhas gerais a história que nos aparece em L'étranger é a seguinte:
Um homem aparentemente normal e com uma vida vulgar na Argélia de meados do século XX,- Mersault - recebe a morte da mãe sem sentir qualquer consternação, mostrando-se indiferente à cerimónia de vigília e enterro. E logo no dia seguinte diverte-se com uma nova amante sem sentir quaisquer remorsos. Frequentador dos pequenos prazeres da vida, vivendo uma felicidade morna no seu quotidiano que muito aprecia, abstinente dos grandes compromissos e das grandes ambições, o que estranha quer a sua amante - que numa proposta de casamento Mersault lhe responde que «tanto faz» - quer o seu patrão - que numa proposta de promoção para uma colocação em Paris aquele igualmente lhe responde que «tanto faz» - enreda-se sem querer num conflito entre um seu amigo e uns árabes, e, num momento infeliz em que se encontra extremamente perturbado por um grande sol e calor, mas sem estar movido por nenhuma animosidade sentimental em especial, mata um deles.

Nas conversas com o advogado e o juiz de instrução e no julgamento que se segue, Mersault deixa todos exasperados pelo facto de não assumir qualquer sentimento de culpa ou remorso perante os seus actos «imorais», com maior ênfase no episódio do enterro da mãe do que no próprio assassínio pelo qual é julgado e pela heresia do não reconhecimento de Deus como salvador da sua alma. A suprema indiferença pelos supostamente elevados «valores» humanos e sociais, a coberto de uma inocência velada que se sente na personagem, expurgada e livre dos antanhos responsáveis pela vida angustiada da maioria da Humanidade (temente ao Homem e à divindade, mas castigada sempre em primeiro lugar pelo Homem) revela em Mersault um homem absurdo, um estrangeiro no seu próprio meio, que sensível ao presente e ao dia -a- dia, desfruta-o o melhor possível. Inconsciente, mas lucidamente não consegue aderir às normas de convívio em sociedade conquanto absurdas lhe parecem, considerado ele próprio absurdo por essa sociedade e, por essa razão, condenado sem apelo nem agravo.

A edição que tive ocasião de ler - da Editora Livros do Brasil - é magnificamente prefaciada por Jean-Paul Sartre, sendo que desse texto introdutório destacaria o seguinte excerto:

Camus, em «O Mito de Sísifo» publicado alguns meses depois, deu-nos o comentário exacto da sua obra: o seu herói não era bom nem mau, nem moral nem imoral. Tais categorias não lhe convêm: faz parte de uma espécie muito singular, à qual o autor reserva o nome de absurdo. Mas, sob a pena de Camus, essa palavra adquire duas significações muito diferentes: absurdo é, ao mesmo tempo, um estado de facto e a consciência lúcida que certas pessoas tomam desse estado. É «absurdo» o homem que, de um absurdo fundamental, tira incansavelmente as conclusões que se impõem. Há aí um deslocamento de sentido igual ao que ocorre quando se chama «swing» uma juventude que dança o swing. O que é então o absurdo como estado de facto, como dado original? Nada menos do que a relação do homem com o mundo. O absurdo fundamental manifesta, antes de tudo, um divórcio: o divórcio entre as aspirações do homem à unidade e o dualismo intransponível do espírito e da natureza, entre o impulso do homem em direcção ao eterno e o carácter finito da sua existência, entre a «preocupação» que é a sua própria essência e a inutilidade dos seus esforços. A morte, o pluralismo irredutível das verdades e dos seres, a ininteligibilidade do real, o acaso, eis os pólos do absurdo.

Sem dúvida, uma obra-prima da literatura universal e de leitura fundamental. Camus constitui - é inegável - um artista ímpar na concepção da palavra por influir nos sentimentos do leitor, ainda que estes possam ser de repugno ante a leitura. Com uma linguagem rápida e objectiva, Camus junta-se a um Kafka ou a um Dostoiévski no coro de questionamentos aos valores morais do mundo. Os três conseguem subverter aquilo que é mais valioso para os homens. Mostram como toda a estrutura social – instituições, leis, religiões, ideologias – é frágil, parecendo absurdo até mesmo para uma obra de ficção, mas, ainda assim, incapaz de causar revolta a quem vê dessa forma. Enfim, em L'étranger podemos vaguear entre os extremos dos sentimentos e a incompreensão, sendo verdadeiramente aí que reside a genialidade desta obra.




Fica como sugestão de leitura sobre a vida e obra de Camus o seguinte link

http://filosofocamus.sites.uol.com.br/CAMUS.htm

22 dezembro 2010

Dos Cortes à Compensação



Tenho ouvido, com algum pasmo, alguns reputados juristas da nação falar da inconstitucionalidade da remuneração compensatória que cobrirá integralmente a perda de vencimento dos funcionários da administração pública regional.
E ainda mais pasmo fico quando o Representante da República, ao exercer o seu direito de veto político nesta matéria, não se exime de fazer considerações jurídicas sobre a constitucionalidade da medida.
Não obstante o veto político do Representante da República ao Orçamento Regional afastar a possibilidade de fiscalização preventiva depois da confirmação do diploma pela ALRAA, nada impede que a questão da constitucionalidade seja colocada a título sucessivo.
Falemos então de inconstitucionalidades. Mas falemos de tudo, não apenas de algumas coisas que só servem concepções arcaicas e centralistas que em nada se suportam constitucionalmente.
Quando vejo José Sócrates inserir no Orçamento de Estado uma norma que determina o abaixamento unilateral e generalizado das remunerações dos trabalhadores da Administração Pública e a manutenção desse abaixamento por um período plurianual, ultrapassando portanto todos os limites do ano económico, fico perplexo ao verificar que estes mesmos zeladores da constituição não abram a boca para dizer rigorosamente nada acerca inconstitucionalidade material clara (por violação dos artigos 105º, nºs 1 e 3 e 106º, nº 1 da Constituição) que tal norma representa.
A estes constitucionalistas não impressionou que tal norma comprometesse as legítimas expectativas à integralidade e não redutibilidade remuneratória com base nas quais os trabalhadores visados oportunamente fizeram as suas opções e contraíram as suas obrigações. A eles não impressiona que de forma violenta, grave e desproporcionada se afectasse situações jurídicas anteriormente constituídas e se fizesse tábua rasa do princípio da confiança ínsito na ideia de Estado de direito (artigo 2º da CRP), nem tão pouco que esta norma consubstanciasse uma verdadeira restrição ou suspensão dum direito constitucional fundamental: o direito ao salário, consagrado no artigo 59º, nº 1 al. a) da CRP.
Estes exímios constitucionalistas só conseguiram ver inconstitucionalidades numa norma que repõe a justiça salarial nos Açores, numa opção política clara de encontrar soluções para a crise económica que não passam exclusivamente pelo sacrifício das pessoas e do seu nível de vida.
O que Carlos César provou é que havia outras opções e que não estão verificados os pressupostos da redução salarial que princípio da necessidade impõe nestas situações. É isto que incomoda tanto Lisboa, os Cavacos, os Sócrates, os Marcelos, os Jorges Mirandas e, por fim, o Representante da República… é isto que incomoda os arautos das teses neoliberais. Atrapalha a atitude de César, porque põe a nú a hipocrisia dos governantes que exigem sacrifícios do salário, emprego, saúde, segurança social de todos os portugueses, mas que ao mesmo tempo não exigem sacrifícios com as mais-valias e dividendos de alguns privilegiados.
Falemos claro, porque é isto que está em causa!
Os Açores têm autonomia política e financeira e as opções feitas são-no no quadro dos seus poderes e prerrogativas constitucionais e estatutárias. A medida em questão não custa um cêntimo a mais que seja ao Estado; trata-se apenas de uma opção legítima e justa que o Estado não soube fazer no seu Orçamento e que os Açores, sacrificando outros investimentos, se viram obrigados a compensar. Considerar isto uma violação dos princípios da igualdade e da solidariedade nacional é não perceber as bases do regime autonómico, fundado nas especificidades geográficas, económicas, sociais e culturais das populações insulares (artigo 225.º, n.º 1 CRP). Quem não tiver imaginação para mais, basta que pense que os custos nos Açores não são iguais aos do continente, nem tão pouco aos da Madeira (que tem apenas duas ilhas), e que uma redução salarial poderia conduzir a uma fuga de cérebros para sítios onde estes constrangimentos não se verificam. E é justamente por esta razão que o próprio Estado confere subsídios aos funcionários da administração central que trabalham nos Açores. Ou não é assim? Falar de falta de solidariedade dos Açores para com o restante país ou é brincadeira ou é ultraje: Brincadeira, porque se as opções fossem outras não reverteria um cêntimo que seja para o OE; Ultraje, porque há uma pesada factura histórica da República para com a Região que está longe de estar paga… Haja coerência!
Por todas estas razões só posso concluir que este “alevanto” político e jurídico contra as medidas do Governo dos Açores não são mais que uma tentativa de desviar as atenções dos problemas constitucionais do próprio OE, apontar o dedo à Autonomia como “bode expiatório” dos problemas estruturais do país e atacar aqueles que, como César, ainda acreditam no modelo social de Estado.

21 dezembro 2010

O RECOMEÇAR DO FILHO DO HOMEM

René Magritte, Le fil's de l'homme
Recomeça...
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...


Miguel Torga


Nas palavras do próprio pintor, “o homem do chapéu de coco é o Sr. Normal, no seu anonimato. Eu também uso um; não tenho vontade de me destacar das massas.” Em Magritte assiste-se a uma comum vontade de assim permanecer: comum. O insólito cresce quando observamos cada não-rosto. O que aqui se tenta é demonstrar que cada traço facial por ele pintado esconde um conjunto de sentimentos que o artista não deseja manifestar. Trata-se então de uma camuflagem que se estende das roupas ao rosto. Um intimista, de facto, mas que só em segredo diz algo sobre si. Se o anonimato só for conseguido à custa de uma redonda maçã verde, que assim seja.
Mas o “Recomeçar” de Torga dá um novo sentido à maçã verde: “De nenhum fruto queiras só metade”. O Sr. Normal quer também saborear a sua vida em toda a sua inteireza, sem nunca se saciar, mesmo que vá colhendo ilusões atrás de ilusões. O segredo está em fazê-lo sem angústia e sem pressas. Só assim se consegue que os passos rumo ao futuro, num caminho obviamente duro, sejam dados em liberdade.
Não o fazer é perder a consciência de si e da sua própria humanidade. Permitir que a loucura deixe de ser nossa para passarmos a ser da loucura. Porque a loucura só é nossa enquanto, com lucidez, nela nos reconheçamos.

Feliz Natal!


É, para mim, uma das músicas mais bonitas do Natal: Adeste Fidelis. Através dela gostaria de desejar a todos os caríssimos leitores deste blogue, em meu nome e julgo que posso fazê-lo também em nome dos outros autores, um Feliz e Santo Natal e votos de um Próspero e Venturoso Novo Ano, repleto de tudo aquilo que de melhor a vida nos pode dar. Tudo de bom!


19 dezembro 2010

A Montanha Mágica - Thomas Mann

O que devo eu então dizer sobre o próprio livro (Montanha Mágica) e ainda por cima, como deve ser lido? O começo é uma exigência muito arrogante, a dizer que se deva lê-lo duas vezes. É claro que essa exigência é retirada imediatamente para o caso de que na primeira vez se tenha ficado entediado. A arte não deve ser nenhum trabalho escolar nem dificuldade, nenhuma ocupação contre coeur, mas sim deve alegrar, entreter e animar e aquele sobre o qual uma obra não exerce esse efeito então este deve deixar a obra de lado e voltar-se para outra. Mas quem chegou uma vez até o final com a “Montanha Mágica” então eu aconselho a lê-la mais uma vez, pois seu feitio particular, seu caráter como composição traz consigo que o prazer do leitor aumentará e se aprofundará da segunda vez, - como se deve já conhecer uma música para poder gozá-la de acordo.

Extracto de Conferência apresentada por Thomas Mann em Maio de 1939 aos estudantes da Universidade de Princeton

Desta feita a obra sobre que falarei é uma das referências do panorama literário mundial: A Montanha Mágica de Thomas Mann. Sem dúvida um dos livros mais marcantes que alguma vez li. Trata-se de um livro extenso,que poderá intimidar,desde logo, algum leitor mais comedido em empresas litrerárias; recheado de pérolas; um livro que, segundo o autor, merecerá uma segunda leitura. Uma obra, segundo doutas opiniões, iniciática; designada com o termo alemão Bildungsroman (romance de aprendizagem ou formação), o tipo de romance em que é exposto de forma pormenorizada o processo de desenvolvimento físico, moral ,psicológico,estético , social ou político de uma personagem, geralmente desde a sua infância ou adolescência até um estado de maior maturidade.

No caso essa personagem seria Hans Castorp, personagem principal do livro, que, terminada a sua formação académica, vai visitar o seu primo a um sanatório nos Alpes, durante três semanas, sem imaginar que essa estadia lhe iria marcar profundamente a sua vida.

Nessa estância, Hans vai conhecer várias pessoas que lhe transmitem múltiplas perspectivas sobre a vida e tudo o que a rodeia, o que vai modificando a pouco e pouco o interior deste homem; homem prático que, aos poucos, vai-se deixando enlear nas profundezas da sabedoria, angústias e paradoxos da humanidade; daí ver-se este romance como romance de iniciação. É fácil o leitor colocar-se no lugar de Hans Castorp e ir fazendo o seu percurso, aprendendo e, sobretudo, reflectindo sobre todas as temáticas que Mann aborda na obra.
O expoente do livro,e isso é ponto assente, são as dissertações e discussões de Settembrini e Naphta, dois "sábios" rezingões que defendem de forma extrema os seus ideais, centrados na "razão", no caso de Settembrini, e no "espírito", no caso de Naphta. A razão e o espírito travam, sob a magistral batuta de Mann, grandes batalhas, onde cada um deles procura puxar Castorp para a sua causa, não existindo, todavia, nunca um vencedor.

Outras personagens enigmáticas recheiam este romance: Peeperkorn, personagem que ofusca Settembrini e Naphta, com a sua percepção prática de apreciação das coisas boas e belas da vida; Behrens, com a sua visão pragmática e um tanto obscura sobre a doença, entrecortada por obcessões marginais sobre a arte, o belo, que é complementada pelo seu assistente, Krokowski, com conferências e estudos desconcertantes sobre o amor e a doença, e depois sobre o espiritismo e a sua relação com a material física.
Embora influenciado pelas múltiplas dissertações e discussões entre Settembrini e Naphta, existem muitos outros episódios e estágios no romance que influenciam Hans Castorp, sendo de destacar a visão da humanidade que ele tem num sonho durante uma tempestade de neve, sensivelmente a meio do livro.

A sua paixão por Claudia Chauchat, que tem ideais completamente opostos aos dele, as suas próprias experiências pessoais através da discussão do tempo, da arte, a assistência aos doentes terminais, a revelação da música, a estranha passagem pelo ocultismo, etc, tornam este romance uma amálgama de grandes momentos, que é difícil de se aferir o seu real valor com apenas uma leitura. Chegados ao fim do livro, facilmente concluímos que, apesar de algumas partes serem um pouco entediantes, afinal a obra perfaz um conjunto harmonioso e todas as partes têm a sua razão de ser, o que o torna apelativo a uma segunda leitura, não obstante as suas quase 816 páginas.

Certamente que A Montanha Mágica não terá sido o primeiro livro que li que marcou pelas variadas dissertações e discussões que apresenta, todavia dá, isso é indiscutível, o mote para nos lançarmos na reflexão sobre inúmeros assuntos que são, por Mann, abordados e magistralmente dissecados. Uma obra de leitura fundamental, eivada de humor e ironia, que acredito, e atendendo à época, daria um excelente presente natalício.

12 dezembro 2010

Em defesa do Socialismo

O texto que agora publico esteve para o não ser por razões várias. Pareceu-me todavia que era vital vir defender o meu ponto de vista quanto à questão que dá título a este post, marcando assim a minha posição político-ideológica em definitivo. Não pretendo alongar-me muito, sob pena de o texto ficar maçador. Servir-me-ei dos meus conhecimentos, quiçá parcos, na defesa daquilo em que acredito. E farei ainda algo que não posso deixar de fazer, uma vez que o que hoje escrevo surge de um distinto ponto de vista sobre estes assuntos, entre mim e um amigo, ou seja, irei afirmar quão nefasto pode ser e efectivamente é o capitalismo, tão acerrimamente defendido por muitos.

Importará pois, em primeiríssimo lugar, definir o Socialismo, no seu sentido original. Encontramos, por exemplo, uma definição em Pierre Leroux (1797-1871) que afirma o Socialismo como a doutrina que subordina o sujeito à sociedade. Já Durkheim, por outro lado, viria afirmar que “chama-se socialista a toda a doutrina que exige a ligação de todas as funções económicas ou de algumas de entre as que actualmente estão difusas, nos centros directores e conscientes da sociedade”. Não nos fiquemos apenas por estas definições simplistas. Em bom rigor, do que se trata quando falamos em Socialismo é de um sistema político-económico, ou de uma linha de pensamento surgida no século XIX, visando confrontar o liberalismo e o capitalismo. Aquilo que verdadeiramente o Socialismo advoga é essencialmente a extinção da propriedade privada dos meios de produção e a divisão igualitária das riquezas e propriedade, com a principal finalidade de proporcionar a todos um modo de vida mais justo.
Parecem ser estas definições por demais pomposas e utópicas. São e não são. Aceito quando me dizem que o Socialismo matou mais de 100 milhões em todo o mundo e espalhou terror, miséria e fome. Todas as catástrofes naturais dos últimos quatro séculos, mesmo as mais devastadoras, todas somadas, não conseguiram produzir resultados tão nefastos. É um facto puro e simples, constatável na reputada obra O Livro Negro do Comunismo. Como já me disseram, basta consultá-la e fazer os cálculos.

Porém, como o que determina as nossas crenças e convicções não são os factos, mas as interpretações, resta sempre ao socialista devoto, como eu, o subterfúgio de explicar, ou pelo menos tentar, essa abominável sucessão de calamidades como o efeito de casos fortuitos sem qualquer espécie de relação com a verdadeira essência da doutrina socialista, a qual conserva assim, imune a toda a triste história das suas realizações, a beleza e a dignidade de um ideal superior. Será sequer minimamente aceitável ou coerente afirmar que os regimes de Estaline, Mao, Hitler, todos diferentes entre si, realizaram um socialismo tal qual idealizado pelos grandes teóricos? De todo. Por exemplo, Hitler era nazi, Mao era comunista (o comunismo chinês, com divergências em relação à URSS), Estaline era comunista; portanto ideologias e modelos políticos completamente diferentes que utilizaram da violência para promover massacres contra o adversário, ou não, servindo-se da lógica de Clausewitz de que “ a guerra é uma extensão da política e que a política exige acções violentas por parte dos governos”.

Todavia, cada qual usava a lógica da violência com um propósito distinto: Estaline e Mao exterminaram adversários políticos que, de algum modo, ameaçavam a manutenção do poder e das suas próprias vidas. Hitler perseguiu judeus, em virtude de uma visão racista e perfeitamente irracional, em defesa da superioridade da raça ariana. Estaline também era xenófobo e não gostava de judeus, mas o preconceito racial não esteve na pauta das suas políticas.
Tudo foi realizado conforme a teoria socialista, na sua vertente científica, especialmente aquela defendida no Manifesto Comunista, a cartilha utilizada por aqueles déspotas. A URSS e a China basearam-se no ideário marxista. Contudo há diversas interpretações das doutrinas marxistas e no caso chinês, Mao foi muito influenciado por algumas tradições de Sun Tzu e numa leitura orientalizada do marxismo (traduções com outros significados), ao mesmo tempo que Estaline seguia uma linha diferente de Trotsky e Lenine. Tanto assim é, que o Partido Comunista Chinês criou uma linha completamente diferente do comunismo soviético, acentuando-se assim diferenças significativas entre ambos.
Poderia vir aqui defender com unhas e dentes, permitam a expressão, o Socialismo e a sua viabilidade, mas não o farei. Sinto-me socialista, defendo o Socialismo na sua essência e de outro modo não poderia ser. Todavia e não poderia terminar este texto sem o fazer, cumpre que diga o que realmente penso sobre afirmações como a de o socialismo ter morto 100 milhões ou sobre o capitalismo ser um sistema defensável e viável.

Sobre a primeira afirmação creio já ter dito o que penso. As experiências, ditas socialistas, despóticas a que aludi não foram, sublinhe-se veementemente, de todo, realizações do verdadeiro socialismo. Foram, isso sim, enormes desumanidades, abomináveis e reprováveis a todos os títulos, espelho de um rebaixamento voluntário e perverso da inteligência a um nível infra-humano.
Mas se determinadas pessoas afirmam que o Socialismo matou milhões, não posso deixar de ficar perplexo e profundamente indignado quando me vêm defender o Capitalismo e os seus supostos benefícios. A essas pessoas simplesmente direi que o Capitalismo é o regime mais assassino da história da humanidade. Na verdade, os mortos pelo Capitalismo são tantos que é impossível fazer uma contagem exacta, são muitos mais do que aqueles a quem o dito Socialismo ceifou a vida. Sucede que a maioria da humanidade prefere ser morta pelo Capitalismo, uma vez que isso significa uma maior oportunidade de ter uma morte tardia, não violenta e com um enterro digno. Refira-se ainda o que afirmou, sem margem para dúvidas, Jean Ziegler, relator da ONU para o direito à Alimentação: “ O Capitalismo mata 100.000 pessoas por dia de fome”. E isto acontece, apesar do mundo ter actualmente a capacidade para alimentar 12 biliões de seres humanos, ou seja, o dobro da população mundial. Mas permitam-me ainda aludir a um caso concreto a nível mundial, onde impera o Capitalismo: a Índia. Até hoje vigente nesse país,o sistema odioso de castas é a pedra angular que, se retirada da parede que sustenta o sistema capitalista na Índia, fará desmoronar como um castelo de cartas, não só o sistema capitalista entendido como um sistema socioeconómico viável, mas também todos os disparates cínicos e verborreicos ,que hoje se apresentam como substrato doutrinário “científico”, e que pretensamente justificam esse ineficiente, cruel e cínico sistema socioeconómico denominado de Capitalismo. E não poderei ainda terminar sem referir a ditadura capitalista alemã de Hitler( que nada tem que ver ideologicamente com o socialismo) e sobretudo as ditaduras capitalistas que assolaram a América do Sul durante mais de 20 anos, sendo comum entre elas a total ausência de democracia. Curiosamente só os regimes comunistas herdaram a fama de antidemocráticos, enquanto o regime capitalista,ironicamente, constituiu sinónimo de democracia.
O mais interessante, é que a característica mais marcante em todo e qualquer regime capitalista é precisamente a dominação da maioria por uma selecta minoria de privilegiados e isso é a própria contradição em termos, do que representa o conceito de democracia.Essa dominação ocorre em razão do maior poder económico e financeiro destes, que obviamente têm as leis a assegurar-lhes a estabilidade do sistema, de forma bem mais eficiente do que nas ditaduras de esquerda. É que contam e sempre contaram com eficiente sistema de marketing, para fazer crer aos incautos que o luxo, a ostentação e o glamour são acessíveis a todos os que se esforçarem e que as derrotas pessoais são meras consequências de erros e fracassos individuais. Como se todos começassem a corrida em posições equivalentes na pista....Mas não se esqueçam ainda todas as outras ditaduras políticas de natureza capitalista: todas as ditaduras conservadoras da Europa. As experiências portuguesa, espanhola, italiana ou até alemã estão todas elas ligadas, sustentadas e patrocinadas por oligarquias capitalistas. Isso não é refutável.
Termino, mas não sem antes reconhecer que haveria muito mais a dizer neste "julgamento da história", que pecará então por ser mui breve e incompleto. Todavia, creio que responderá, no essencial, àquilo que pretendia. Portanto, e salvo melhor opinião, dou por terminado o texto, rematando-o, como claramente não poderia deixar de ser, citando o iluminado Anthero de Quental, na sua valiosíssima obra A Política:

“ (…)o Socialismo, tão antigo como a justiça e a opressão do pobre pelo rico, do desvalido pelo poderoso, não é mais do que o protesto dos que sofrem contra a organização viciosa que os fez sofrer. É a reclamação da justiça e da igualdade nas relações dos homens; dos homens que a natureza criou livres iguais, e de que a organização social fez como que duas inimigas, uma que manda, goza e oprime, outra que obedece, trabalha e sofre: dum lado, senhores, aristocratas, capitalistas; do outro, escravos, servos, proletários!
No dia em que esta desigualdade monstruosa e ímpia apareceu no mundo, apareceu também logo a protestar contra ela, o Socialismo. O Socialismo não é de hoje nem de ontem. Todos os grandes pensadores, desde Pitágoras, e Platão, e Cristo, e os Gracos, e os santos da primitiva igreja, e os fundadores das ordens monásticas, todos reclamaram contra a miséria e a desigualdade, em nome do direito natural e inalienável que todo o homem tem à vida, ao bem-estar, aos meios de desenvolver a sua actividade, trabalhando, à família e à instrução. A todos eles fez o espectáculo da injustiça social soltar palavras de amargura e indignação.”

07 dezembro 2010

Carta sobre o Humanismo - Martin Heidegger


“Comment redonner um sens au “humanisme?” - Beaufret



Escolhi desta vez uma obra de carácter mais filosófico, uma das minhas últimas leituras estivais: Carta sobre o Humanismo de Martin Heidegger, numa edição da Guimarães editores. Heidegger, filósofo alemão, será sem dúvida um dos pensadores mais importantes de toda a história do século XX, a par com outros nomes indeléveis como os de Bertrand Russel, Wittgenstein ou Foucault. Seria também decisiva a influência daquele filósofo na obra de Jean-Paul Sartre.
Abandonando a teologia, mergulhou nos helenos para tentar encontrar neles a substância que de alguma forma amparasse o homem contemporâneo num mundo desesperançado de Deus. Erguendo-se contra a tradição metafísica, voltou-se para o ser (ontologia), procurando encontrar um norte num cenário onde os valores da religião e da metafísica haviam sido abalados até as suas raízes.
A filosofia heideggeriana é toda ela traduzida numa linguagem altamente cifrada,complexa e, dir-se-ia também, de difícil compreensão. Aliás é justamente isso que marca o chamado Deutschesgeist:o espírito alemão, que sempre espantou o Ocidente pela sua complexidade, diversidade, seriedade e profundidade. Kant, Hegel, Marx e Nietzsche são, nomes que desde logo, constituem disso mesmo um exemplo.
Muito cultuado, Heidegger foi um fervoroso apologista do nazismo antes da derrota da Alemanha, na segunda guerra mundial. Cumpre dizer que ficou, para muitos, como um pensador original e um crítico da sociedade tecnológica do século XX. A corrente em que se insere o seu pensamento e obra é designada de "Existencialismo", muito na linha do pensamento de Kierkegaard, à qual Heidegger se filiou. Foi também um escritor prolífico, sendo que se estima que, a calcular tudo o que escreveu, isso reuniria 70 obras.
Justamente uma dessas obras foi a Carta sobre o Humanismo, de que aqui, brevemente, falarei. Embora Heidegger já tivesse um renome respeitado no continente europeu, jamais se debruçara e escrevera uma obra de teor explicitamente “humanístico” e “ético” e a sua vinculação ao partido nazi, até o final da guerra, tornava ainda mais suspeitas as intenções do autor. Ante tal cenário, Jean Beaufret, existencialista francês que tentava ligar a obra de Heidegger ao existencialismo, escreve uma carta pedindo ao pensador alemão que esclarecesse que significado se poderia dar ao humanismo abalado por duas guerras mundiais sucessivas.
Heidegger responderia então, a Beaufret, em Carta sobre o Humanismo. Em linhas generalíssimas, o filósofo alemão irá propor, tendo por base o fragmento 119 de Heráclito, que a ética abandone o moralismo superficial e o legalismo dos códigos de costumes e procure encontrar a sua raiz na morada do próprio ser humano. A partir da compreensão radical da morada do ser no homem, seria possível entender como emergem todos os comportamentos e costumes quotidianos de cada um.
Contrário às demandas por um humanismo e às novas correntes de pensamento rotuladas, Heidegger vai dizer que “na sua gloriosa era, os gregos pensaram sem tais títulos”. Para ele, só quando o pensamento sai do seu elemento próprio é que, por perder o poder de guardar a sua essência, a técnica passa a ser valorizada como actividade cultural e a “Filosofia vai transformar-se numa técnica de explicação pelas causas últimas”, numa crítica directa à metafísica feita por Aristóteles, que buscava as causas últimas das coisas. O humanismo, de facto, deveria consistir numa meditação que preservasse o homem na sua humanidade, na sua essência.
Todavia, para experimentar a sua essência é preciso que se retome as questões originárias da história do ser: a sua “pátria”, que na concepção adoptada por Heidegger, aqui, não tem uma conotação nacionalista, mas apenas ontológica-historial de um momento no qual o homem esteve mais próximo do ser. O esquecimento do ser é o resultado desse distanciamento do homem em relação à sua “pátria”. Concebida nesses termos a metafísica heideggeriana revela um forte apelo à tradição clássica que se concretizaria por um regresso ao pensamento originário helénico.
O humanismo de Heidegger, nas suas próprias palavras, é aquele que “pensa a humanidade do homem desde a proximidade do ser”. Em causa está, portanto,não o homem, mas a sua história e origem, do ponto de vista da verdade do ser. O sucesso desse humanismo, para além do homem, depende da linguagem e do acesso do pensamento originário àquela verdade a que pertence a linguagem. Em suma, “a essência do homem reside na ec-sistência”, isto é, o humanismo deve voltar-se não para o ente humano, mas para a sua existência autêntica na verdade do ser-no-mundo. O mundo, aqui, é concebido como o lugar no qual o ser aparece: uma clareira, no sentido heideggeriano.
Heidegger nega o humanismo para poder afirmá-lo. Ele o nega no sentido que foi pensado até então, tendo por base a concepção metafísica do homem enquanto “animal racional”. “Dar-lhe novamente um sentido pode significar: determinar de novo o sentido da palavra”. E para isso a essência do homem deve ser experimentada mais originalmente e essa essência é justamente a sua ec-sistência e a sua importância é recebida do próprio ser para a vigilância do ser, pondo-o na própria verdade do ser. “Importa a humanitas ao serviço da verdade do ser, mas sem o humanismo no sentido metafísico”.
Heidegger não criou nem se dedicou ao estudo da Ética, mas podemos perceber que o seu discurso nos remete para os fundamentos ontológicos da eticidade. Ao tratar do ethos originário, da morada, o filósofo remete-nos para uma nova perspectiva ética. Não podemos atribuir um carácter moral à sua filosofia,pois, estaríamos a interpretar erroneamente o seu pensamento. No entanto, a busca de uma Ética originária é necessária, visto que o homem passa por uma crise histórica, fruto de uma falta de compreensão do sentido do Ser. E acreditamos que a partir desta nova visão e postura “ética”,ele possa indicar caminhos que o direccionem para uma possível solução desta crise, que nada mais é do que uma crise de compreensão do próprio Ser do homem.